Uma das coisas que mais me assustou quando voltei para o Brasil foi a questão de salários. Ironicamente, um dos motivos que me fez voltar deixou de ter importância ao ver os salários oferecidos para a minha área. Ou seja, a minha graduação, a minha pós e o meu inglês fluente não eram o suficiente para o mercado de trabalho, que exigia conhecimentos de programas de diagramação, foto, cafezinho, etc. E o pior, com salários que não eram bons nem para pagar um só profissional. Foi então que comecei a questionar sobre o salário mínimo daqui.
Conversando com a mãe do meu ex-flatmate um dia, comentei que o salário mínimo aqui girava em torno de 350 dólares neozelandeses. Aí ela disse: por semana, né? E respondi que não, que era por mês. Ela teve um choque. E realmente é para ter. Na Nova Zelândia, quem trabalha 40 horas por semana, recebe NZD $540 por semana, ou seja, $2160 por mês. Na Austrália, este valor salta para AUD $2720 o mês.
No final de dezembro, o governo brasileiro anunciou o aumento do salário mínimo para janeiro de 2014. Saiu dos R$ 678 para R$ 724. E fez isso como se fosse a maior e melhor coisa do mundo, informando o quanto de dinheiro ia injetar na economia este aumento. Melhor este aumento do que nenhum, mas a realidade nua e crua é que este valor ainda está muito aquém do que precisa ser. Este valor não traz dignidade a ninguém. Por outro lado, é preciso ressaltar a força do povo brasileiro que consegue sobreviver com este valor, são várias famílias que dependem deste salário para morar, comer e vestir. Nem vou citar o lazer, porque se elas conseguirem ainda ter lazer com R$724, elas são ninjas.
Fiz uns cálculos para comparar quanto sairia a hora trabalhada no Brasil, e para facilitar o entendimento, resolvi converter em dólar americano, que é a moeda mais comum. De acordo com a CLT (Consolidação das Leis de Trabalho), são 220 horas por mês. Com o novo valor do salário mínimo, a hora trabalhada no Brasil vale R$3,29 ou US$ 1,40. Voltando ao mínimo da Nova Zelândia, a hora trabalhada seria NZD 1,70, o que significa que uma pessoa que trabalha 40 horas por semana lá, receberia $68 por semana, ou $272 por mês. Neste ponto vale uma ponderação, aqui no Brasil são 220 horas, já que considera o descanso remunerado, lá, seriam 160 horas, você recebe pelo que trabalhou e só.
De acordo com o Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos), em dezembro de 2013 o salário mínimo deveria ser de R$ 2.765,44, 4,07 vezes maior do que o pago naquela época e 3,82 vezes maior do que os atuais R$ 724.
O que tenho visto é pessoas formadas recebendo praticamente o valor que pagaram de mensalidade de faculdade, e com poucas perspectivas de mudanças no futuro. O tão sonhado diploma superior não tem ajudado muito, embora ainda seja melhor do que não ter diploma. E também uma queda dos salários, uma padronização para baixo. Os nossos pais recebiam proporcionalmente mais do que nós hoje, sendo que temos mais qualificações do que eles (em muitos casos).
Até quando vai ser assim?
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