terça-feira, 17 de maio de 2016

Direitos? Afinal que direitos?

Acho que o que vou escrever aqui vai ser criticado pela grande maioria das pessoas que vivem no Brasil. Mas é uma coisa que venho pensando desde o momento que pisei de volta neste país que somente retrocedeu nos últimos três anos. O ser humano tem uma dificuldade muito grande em lidar com mudanças, sejam elas quais forem. E quando o assunto é política e ameaça de retirada de direitos, aí o povo esbraveja. Mas o que seriam estas retiradas de direitos?

Quando me mudei para a Nova Zelândia, se é que posso usar o verbo mudar, horrorizei com a questão de não ter auxílio para transporte, 13o salário e complementação de férias. Pensava em como as pessoas podiam não ter aqueles direitos fantásticos! Uma vez inserida naquela cultura fui percebendo que por receber por hora, eu fazia muito mais dinheiro do que normalmente eu faço no Brasil. E havia mais empregos, já que era por hora. Com isto, mães conseguiam produzir e ter tempo livre para cuidar dos filhos e era mais fácil encontrar trabalho desde que você estivesse aberto a trabalhar em horários não tão convencionais. E o melhor de tudo, a minha estabilidade no emprego é infinitamente maior do que no Brasil, onde, apesar de todos os direitos trabalhistas, se o meu chefe resolver dar o cargo para outra pessoa ele pode me demitir sem que eu tenha dado um motivo real. Lá para eu ser demitida preciso ser advertida por escrito pelo mesmo motivo por três vezes.

Estas são apenas algumas questões que precisei analisar e me adaptar, já que era novo para mim. E depois de certo tempo percebi que o país caminha justamente por isto. Esta lógica trabalhista é quase a mesma em outros países onde se vive bem. Mas retirar direitos dos trabalhadores no Brasil é polêmico, as centrais não vão permitir, afinal o trabalhador merece tudo! O trabalhador merece emprego, salário decente, oportunidades, segurança, clima organizacional adequado! O que é melhor? Receber o 13o e 1/3 de férias e um salário que não te permite viver com dignidade e poder ser demitido a qualquer momento? Ou não ter nenhum destes direitos e saber que amanhã você terá o seu emprego (só vai ser demitido se pisar feio na bola e não porque o seu chefe não gosta de você) e que seu salário te permite viver com dignidade?

Agora, com o novo governo vi frases de que o ministro falou que o SUS não se sustenta. Pergunte a um americano quanto custa cuidar da saúde (ou doença) nos Estados Unidos! Austrália e Nova Zelândia, países entre os melhores para se viver, cobram da população pelo serviço prestado. As vezes são valores bem simbólicos, mas cobram. Assim como faculdade. O governo ajuda, mas todos pagam pela formação. Mas aqui no Brasil temos a cultura de que o governo é obrigado a dar tudo (inclusive bolsa família, bolsa cultura...). Somos 200 milhões de brasileiros! Se em um país que não tem nem 5% disso, eles não fazem, como que o Brasil pode fazer? E mais, fazer direito? - Não irei entrar no mérito da corrupção aqui, pois são milhares de milhares desviados do destino final. Mas o ponto aqui é porque queremos tudo de graça. Não sai de graça! Quem paga imposto está pagando isto e quem não paga (porque não pode ou não quer) se beneficia do mesmo jeito e no final a conta não fecha.

E ainda tem a questão da idade mínima para a aposentadoria. Em vários países esta questão vem sendo discutida e alterada para permitir que todos se aposentem. Mas no Brasil não pode! É um absurdo! As pessoas vivem mais, a população jovem está diminuindo. Quem trabalha hoje paga a aposentadoria de hoje. Mas se não tiver gente suficiente para produzir daqui a alguns anos, provavelmente você será o aposentado que não vai contar com a aposentadoria de amanhã. A questão da idade ainda conta em um mercado de trabalho que privilegia os mais jovens pelos salários menores e vai precisar mudar para garantir que os mais experientes consigam se manter na ativa e em seus empregos até o momento da aposentadoria. Esta é a grande dificuldade deste ponto que vejo no Brasil. Infelizmente alterar a idade da aposentadoria, sem alterar a mentalidade das empresas, pode ocasionar num problema ainda maior. No entanto, são mudanças que precisam acontecer. 

Precisamos ver o que funciona lá fora e usar como exemplo. E precisamos pensar que a função de um governo é administrar o bem público, sendo capaz de gerar desenvolvimento e com isto empregos para sua população. Também é função garantir educação e saúde de qualidade. A população também precisa fazer sua parte cuidando do patrimônio e do coletivo, fiscalizando seus políticos e cobrando seus direitos, mas também cumprindo seus deveres. Está na hora de refletir: o que é culpa do governo e o que é sua culpa? O que o governo pode fazer e o que você pode fazer?